Entre ricos e pobres, entre Norte e Sul, entre
negros e brancos, acesso à educação no país é marcado por diferença de
oportunidades determinante na vida adulta.
Direito de todos e dever do Estado e da família,
conforme a Constituição de 1988, a educação – leia-se educação de qualidade –
ainda está longe de ser assegurada a todos os brasileiros. Se a situação do
ensino público não é das melhores em todo o país, tende a ser bem pior nas
localidades mais pobres, que padecem da insuficiência de recursos para
construir e equipar escolas e pagar salários dignos aos professores.
Um relatório do Fundo das Nações Unidas para a
Infância (Unicef), publicado em 2012, mostra que em 2009 as regiões com maior
percentual de alunos em risco de abandonar a escola – aqueles com repetências
seguidas e elevadas distorções entre a série que deveriam estar cursando na
idade adequada – eram a Norte (18,33%) e a Nordeste (17,68%), as duas mais
pobres do país. Nas escolas localizadas nas zonas rurais dessas regiões o
percentual de crianças atrasadas chega a ser duas vezes maior que no Sul e no
Sudeste.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação, os
estados Rio Grande do Norte, Sergipe, Amapá e Maranhão ficaram com os menores
Índices de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para os anos iniciais do
ensino fundamental em 2011, alcançando 4.1. O indicador está abaixo da média
nacional, que é de 5.0. Na outra ponta estão Minas Gerais (5.9), Santa Catarina
(5.8), Distrito Federal (5.7), São Paulo e Paraná (ambos com 5.6).
No ensino médio, os determinantes geográfico e
econômico se repetem: Pará é o último da lista, com apenas 2.8, seguido por
Alagoas, 2.9, e Maranhão, Amapá e Rio Grande no Norte, com 3.1. Nos primeiros
lugares estão só estados do Sul e Sudeste: Santa Catarina (4.3), São Paulo
(4.1) e Paraná (4.0). A média nacional para essa etapa da educação é 3.7.
“Na região Norte temos o desafio das grandes
distâncias. As crianças estão espalhadas por imensos territórios. Temos escolas
rurais com poucos alunos em salas multisseriadas e é muito grande a dificuldade
para conseguir contratar professor. Imagine o tamanho do desafio de ser
professor em uma condição assim”, aponta a presidenta da União Nacional
dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Cleuza Repulho.
De acordo com o documento do Unicef, nas zonas
rurais, mais pobres e com dificuldades de acesso, os indicadores educacionais
são inversamente proporcionais ao tamanho dos problemas. Das 3,7 milhões de
crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos que estão fora da escola, a maioria
está nas zonas rurais. E as pessoas que vivem no campo têm em média 3,9 anos de
estudo a menos que as que vivem na cidade.
“Por uma questão de oportunidade, o local onde a
criança nasce é um fator importante para o seu sucesso escolar. É comparar o
incomparável. A desigualdade é muito grande”, lamenta Cleuza. “Estar a 200
metros de uma escola não é a mesma coisa que estar a 20 quilômetros. Por isso
transporte escolar é fundamental.” Ainda assim, a ampla maioria dos alunos
matriculados nas zonas rurais (65%) não conta com transporte escolar público,
segundo informa o Unicef.
As distorções verificadas no país se repetem dentro
dos municípios, mesmo dos mais ricos, por abrigarem uma população de alta
vulnerabilidade e baixa escolaridade. “E quem são elas? As pobres, negras,
indígenas com deficiência ou que moram nos lugares mais afastados”, explica
Cleuza.
Os dados comprovam: enquanto 30,67% dos estudantes
brancos (1,6 milhão) termina o ensino fundamental com idade maior que a ideal,
o percentual chega a 50,43% (3,5 milhões) entre as crianças negras. Além disso,
apenas 6% dos alunos matriculados no ensino médio são indígenas, segundo o
Unicef.
A
desigualdade é mais acentuada a partir da comparação por renda: 62,02% das crianças
de famílias com renda per capita de até um quarto do salário mínimo terminam a
escola com a idade defasada para a série, contra 11,52% nas famílias com renda
superior a dois salários mínimos por pessoa.
A maioria
dos 3,7 milhões de estudantes que estão fora da escola são adolescentes de 15 a
17 anos (1,5 milhão), que deveriam estar no ensino médio, e crianças de 4 a 5
anos (1,4 milhão), idade em que deveriam estar na educação infantil. Ambas
etapas passarão a ser obrigatórias a partir de 2016.
“O Brasil já conseguiu universalizar o acesso a
educação fundamental, mas no ensino infantil, médio e superior o acesso ainda é
bastante limitado”, lamenta a presidenta da União Nacional dos Estudantes
(UNE), Virgínia Barros. “Ao todo, 98% das crianças de 7 a 14 estão
matriculadas no ensino fundamental. Os 2% restantes equivalem a pelo menos 500
mil crianças, mais do que a população de Luxemburgo. O principal desafio é
universalizar a educação de qualidade.”
O presidente da Confederação Nacional dos
Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão, não coloca em dúvida o aspecto
socioeconômico como determinante das diferenças. Mas lembra que a
disponibilidade de recursos nas mãos do gestor nem sempre faz a diferença na
hora de oferecer educação de qualidade à população. Segundo ele, se fosse
assim, Sudeste e Sul deveriam oferecer educação com qualidade muito maior do
que oferecem. “Exemplo é a educação pública de São Paulo, apesar do esforço dos
professores. Eles não ganham bons salários, têm o duvidoso benefício de uma
jornada de até 65 horas semanais, tem muita contratação temporária, com modelo
considerado subemprego.”
Lição de casa
Enfrentar as desigualdades regionais na educação
exige uma série de políticas articuladas, em diferentes áreas que passam desde
a redistribuição de recursos até mudanças nas práticas dentro das
escolas, como sugerem especialistas.
“Muitos municípios, principalmente os mais pobres,
não têm recursos financeiros e nem pessoal qualificado em número suficiente
para tocar com eficiência o processo educativo. É necessário que o país todo
faça um esforço pra reduzir as desigualdades”, afirma o presidente do Conselho
Nacional de Educação, Fernando Lima. “Esse esforço deve permear todos os
debates, desde a distribuição dos recursos até os procedimentos dentro das
escolas.”
A legislação brasileira determina que a educação
receba 25% do que estados e municípios arrecadam de impostos, que compõe o
chamado Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), além de
18% dos impostos da União e outras complementações. O Fundeb, criado em 2007,
repassa verba para estados e municípios levando em conta o número de
matriculas, garantindo assim um valor mínimo.
Na opinião da presidenta do Conselho Nacional dos
Secretários Estaduais de Educação (Consed), Maria Nilene Badeca da Costa,
secretária estadual do Mato Grosso do Sul, reforça o coro de que a ampliação
dos recursos destinados à educação depende de um esforço cooperativo dos entes
federados. Para ela, é preciso elevar a massa global de recursos e reduzir
ainda mais as desigualdades decorrentes da capacidade diferenciada de
arrecadação dos entes federados. “Mecanismos redistributivos, como o Fundef e
seu sucessor, o Fundeb, contribuem nessa direção. Entre os estados, porém, as
diferenças são ainda importantes, mesmo com a complementação aportada pela
União. A diferença entre o estado com maior valor por aluno e aquele com o
menor é da ordem de 64%”, explica. “É verdade que essa diferença já foi bem
maior. No entanto, ainda há necessidade de maior equalização, a fim de que o
mesmo padrão de qualidade seja alcançado em todo o país. Nesse caso, é
inevitável discutir a participação dos entes federados no financiamento da
educação básica, especialmente a da União que, constitucionalmente, tem
responsabilidades redistributivas.”
A coordenadora da organização não governamental
Ação Educativa, Denise Carreira concorda. “Precisamos reverter a lógica da
política chamada universal, que não é neutra. Ela acaba muitas vezes reforçando
a desigualdade. Nosso desafio é combinar as políticas universais com políticas
de ação afirmativa. Temos que questionar por que os equipamentos têm que estar
sempre no centro? Por que os melhores professores têm que ficar no centro?”,
questiona.
Para o especialista em financiamento da educação
Luís Araújo, é preciso também garantir mais recursos para a área e uma maior
participação da União no montante final. “É preciso redistribuir mais recursos
para as regiões que tem maiores carências e para isso é necessário que a União
participe de forma mais decisiva”, diz. “Quem pode diminuir a desigualdade é a
União, colocando mais recursos na educação e distribuindo para estados e
municípios.”
Autor: Brasil Atual

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