Ilustração:
Vilmar Oliveira
Se tem um
espaço na escola que não deveria ser um local de conversas é a porta da sala de
aula. Mas como é difícil evitar que isso aconteça!
Em muitas
instituições, é na porta das classes que os pais se encontram com os
professores nos horários de entrada e saída da criançada. Nesses momentos, são
quase inevitáveis falas como: “Posso falar com você só um minutinho?” e “Como
foi o dia? Meu filho se comportou bem?”. O professor precisa ser bem orientado
e estar atento para conseguir escapar dessas armadilhas. E uso essa
expressão por ter vivido e testemunhado inúmeras (e desastrosas) situações,
que, naturalmente, teriam sido evitadas se alguns protocolos tivessem sido
seguidos.
Relato a
seguir um desses momentos, certamente o mais danoso e traumático. Em turmas do
1º ano, com crianças de 6 e 7 anos, momentos de descoberta e exploração da
intimidade entre meninos ou meninas é algo natural. Durante um recreio, alguns
alunos, dentro do banheiro, se exibiram uns aos outros, mostrando seus órgãos
genitais. Rapidamente, colegas que testemunharam a cena procuraram a professora
da classe para resolver a situação. Insegura em relação a que atitude deveria tomar,
ela pediu ajuda. A diretora, conhecendo sobre o desenvolvimento infantil, fez a
intervenção apropriada com as crianças. Ela se preocupou mais com as
questões de preservação da intimidade – o que é da dimensão do privado e do
público –, do que com as de apelo sexual.
Informada
sobre como o caso tinha sido encaminhado, a professora retomou normalmente o
trabalho. No entanto, em vez de dar o assunto como encerrado, ao ser
questionada por um familiar sobre o comportamento de um dos garotos envolvidos
no episódio do banheiro, a docente relatou todo o caso, ali mesmo na porta
da sala. Pronto, o estrago estava feito! Para resumir, no dia seguinte
fomos informados de que o menino havia sido brutalmente espancado pelo pai que,
avaliando a situação sob sua perspectiva, buscou dar um corretivo no filho, a
fim de garantir que a atitude não se repetisse.
Façamos o
difícil exercício de não julgar esse pai e foquemos em como evitar situações
como essa. É compreensível que os professores, buscando atender às famílias,
acabem dando respostas de maneira improvisada e não profissional. Há na escola,
ou deveria haver, momentos específicos para o atendimento aos familiares, com
hora marcada, em local apropriado e com a presença dos profissionais
diretamente responsáveis pelo aluno. Sempre, o coordenador pedagógico ou o
orientador educacional deve estar junto com o professor.
É
importante que antes de qualquer conversa com os responsáveis, a
coordenação oriente o professor e alinhe com ele os pontos a serem tratados e a
abordagem adequada, considerando os aspectos relevantes para que o atendimento
tenha sucesso: linguagem apropriada, acolhimento das dúvidas, respeito e
reconhecimento da fala dos pais e limites a serem respeitados. Comunicações
improvisadas, como nos casos dos papos de porta de sala, dão espaço para
incidentes evitáveis.
Mas e
quanto às indagações de porta de sala? O que responder aos pais? O melhor é dar
respostas claras e objetivas que não possibilitem margem a outras
interpretações. Veja alguns exemplos: “Foi um dia de muitas aprendizagens
e de novos desafios” ou “o comportamento do seu filho está dentro do
esperado”. Aos pedidos de conversa em particular, por sua vez, é possível se
posicionar da seguinte maneira: “Será que poderíamos combinar um outro momento?
Na entrada e saída é fundamental que eu esteja atento e disponível para as
outras crianças”. Uma resposta difícil? Não. Uma resposta profissional!
Voltando
ao episódio que relatei acima, embora essa orientação já tivesse sido dada aos
nossos professores, não pudemos evitar o desfecho da história. Portanto, coube
à professora e a todos nós da escola convivermos com aquele que, para mim,
é o pior dos castigos: o sentimento de culpa.
E você,
já viveu alguma saia justa causada por esses bate-papos de porta de sua sala?
Conte como lidou com a situação. Sua participação enriquece esse espaço.
Por :Flávia Vivaldi.
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